17.7.20
6.7.20
liturgia
"Não sou particularmente boa pessoa"
Poesia
por Miguel Martins
"Não sou particularmente boa pessoa.
Não tenho especial bom gosto.
A minha família é como as demais.
As coisas muito boas desperdiçam-se em mim.
Dentro dos limites do razoável burguês,
qualquer coisa me serve.
Prefiro conversar com um velejador solitário,
um condutor de tanques de guerra,
um taxista de Istambul
do que com um pensador da pós-modernidade
ou um poeta de palavras astuciosamente enclavinhadas.
Mais: prefiro despir uma operária de Manchester
a qualquer coisa dessas
(por mim, tudo à minha volta estaria em trânsito constante).
Não sou muito competente em nada,
a preguiça não ajuda
e a pressa inexplicável muito menos.
Sou imediatista:
materialista e anárgiro.
Tenho uma aproximação instrumental aos sonhos
e uma abordagem nefelibata às coisas práticas
(é óbvio que se pode ser volúvel sem se ser gelatinoso).
Habituei-me a depender dos outros,
a contar com eles
e a não me considerar, sequer, em dívida.
Húbris sem némesis.
Tenho todo o tipo de preconceitos.
Apoio-me num andaime de suficiências reveladas.
A avidez tomou em mim o lugar da razão e da justiça.
Demagogia por demagogia, mais vale nenhuma
e a retórica é uma canseira.
É preciso muita objectividade para viver tão enovelado
e é preciso viver muito enovelado para ser tão objectivo
(de igual modo, tenho de ter muita saúde para ter tão pouca
— a gordura armazenada nas bossas dos camelos
ou um acaso genético
ou um sofá herdado).
Ora bem: dito isto,
sou dos tipos menos desinteressantes que conheci.
Tenho olfacto para animar qualquer sala durante meia hora
e só não me dão de beber em ambientes daquela miopia
— empedernidamente fúnebre —
que se topa à légua pela acne tardia,
a pele amarelada,
a cara emaciada dos que só têm uma (e logo assim!),
gente que não sabe soldar dois arames
e faz minetes como os gatos bebem leite."
O Melhor que o confinamento de março de 2020 trouxe https://torpor.abysmo.pt/
Não tenho especial bom gosto.
A minha família é como as demais.
As coisas muito boas desperdiçam-se em mim.
Dentro dos limites do razoável burguês,
qualquer coisa me serve.
Prefiro conversar com um velejador solitário,
um condutor de tanques de guerra,
um taxista de Istambul
do que com um pensador da pós-modernidade
ou um poeta de palavras astuciosamente enclavinhadas.
Mais: prefiro despir uma operária de Manchester
a qualquer coisa dessas
(por mim, tudo à minha volta estaria em trânsito constante).
Não sou muito competente em nada,
a preguiça não ajuda
e a pressa inexplicável muito menos.
Sou imediatista:
materialista e anárgiro.
Tenho uma aproximação instrumental aos sonhos
e uma abordagem nefelibata às coisas práticas
(é óbvio que se pode ser volúvel sem se ser gelatinoso).
Habituei-me a depender dos outros,
a contar com eles
e a não me considerar, sequer, em dívida.
Húbris sem némesis.
Tenho todo o tipo de preconceitos.
Apoio-me num andaime de suficiências reveladas.
A avidez tomou em mim o lugar da razão e da justiça.
Demagogia por demagogia, mais vale nenhuma
e a retórica é uma canseira.
É preciso muita objectividade para viver tão enovelado
e é preciso viver muito enovelado para ser tão objectivo
(de igual modo, tenho de ter muita saúde para ter tão pouca
— a gordura armazenada nas bossas dos camelos
ou um acaso genético
ou um sofá herdado).
Ora bem: dito isto,
sou dos tipos menos desinteressantes que conheci.
Tenho olfacto para animar qualquer sala durante meia hora
e só não me dão de beber em ambientes daquela miopia
— empedernidamente fúnebre —
que se topa à légua pela acne tardia,
a pele amarelada,
a cara emaciada dos que só têm uma (e logo assim!),
gente que não sabe soldar dois arames
e faz minetes como os gatos bebem leite."
O Melhor que o confinamento de março de 2020 trouxe https://torpor.abysmo.pt/
4.2.20
Natal...ia
"Senhores jurados sou um poeta
um multipétalo uivo um defeito
e ando com uma camisa de vento
ao contrário do esqueleto
Sou um vestíbulo do impossível um lápis
de armazenado espanto e por fim
com a paciência dos versos
espero viver dentro de mim
Sou em código o azul de todos
(curtido couro de cicatrizes)
uma avaria cantante
na maquineta dos felizes
Senhores banqueiros sois a cidade
o vosso enfarte serei
não há cidade sem o parque
do sono que vos roubei
Senhores professores que pusestes
a prémio minha rara edição
de raptar-me em crianças que salvo
do incêndio da vossa lição
Senhores tiranos que do baralho
de em pó volverdes sois os reis
sou um poeta jogo-me aos dados
ganho as paisagens que não vereis
Senhores heróis até aos dentes
puro exercício de ninguém
minha cobardia é esperar-vos
umas estrofes mais além
Senhores três quatro cinco e sete
que medo vos pôs por ordem?
que pavor fechou o leque
da vossa diferença enquanto homem?
Senhores juízes que não molhais
a pena na tinta da natureza
não apedrejeis meu pássaro
sem que ele cante minha defesa
Sou uma impudência a mesa posta
de um verso onde o possa escrever
ó subalimentados do sonho!
a poesia é para comer. "
natália correia
as maçãs de orestes
1970
25.1.20
A nossa vez
"o frio que nos tolhe ao domingo
no Inverno, quando mais rareia
a esperança. São certas fixações
da consciência, coisas que andam
pela casa à procura de um lugar
e entram clandestinas no poema.
São os envelopes da companhia
da água, a faca suja de manteiga
na toalha, esse trilho que deixamos
atrás de nós e se decifra sem esforço
nem proveito. É a espera
e a demora. São as ruas sossegadas
à hora do telejornal e os talheres
da vizinhança a retinir. É a deriva
nocturna da memória: é o medo
de termos perdido sem querer
a nossa vez. "
Rui Pires Cabral, in 'Longe da Aldeia'
no Inverno, quando mais rareia
a esperança. São certas fixações
da consciência, coisas que andam
pela casa à procura de um lugar
e entram clandestinas no poema.
São os envelopes da companhia
da água, a faca suja de manteiga
na toalha, esse trilho que deixamos
atrás de nós e se decifra sem esforço
nem proveito. É a espera
e a demora. São as ruas sossegadas
à hora do telejornal e os talheres
da vizinhança a retinir. É a deriva
nocturna da memória: é o medo
de termos perdido sem querer
a nossa vez. "
Rui Pires Cabral, in 'Longe da Aldeia'
13.12.19
14.11.19
poesia em 1964
«A coisa mais antiga de que me lembro é dum quarto em frente do mar
dentro do qual estava, poisada em cima duma mesa, uma maçã enorme e
vermelha. Do brilho do mar e do vermelho da maçã erguia-se uma
felicidade irrecusável, nua e inteira. Não era nada de fantástico, não
era nada de imaginário: era a própria presença do real que eu descobria.
Mais tarde a obra de outros artistas veio confirmar a objectividade do
meu próprio olhar. Em Homero reconheci essa felicidade nua e inteira,
esse esplendor da presença das coisas. E também a reconheci, intensa,
atenta e acesa na pintura de Amadeo de Souza-Cardoso. Dizer que a obra
de arte faz parte da cultura é uma coisa um pouco escolar e artificial. A
obra de arte faz parte do real e é destino, realização, salvação e
vida.
Sempre a poesia foi para mim uma perseguição do real. Um poema foi sempre um círculo traçado à roda duma coisa, um círculo onde o pássaro do real fica preso. E se a minha poesia, tendo partido do ar, do mar e da luz, evoluiu, evoluiu sempre dentro dessa busca atenta. Quem procura uma relação justa com a pedra, com a árvore, com o rio, é necessariamente levado, pelo espírito de verdade que o anima, a procurar uma relação justa com o homem. Aquele que vê o espantoso esplendor do mundo é logicamente levado a ver o espantoso sofrimento do mundo. Aquele que vê o fenómeno quer ver todo o fenómeno. É apenas uma questão de atenção, de sequência e de rigor.
E é por isso que a poesia é uma moral. E é por isso que o poeta é levado a buscar a justiça pela própria natureza da sua poesia. E a busca da justiça é desde sempre uma coordenada fundamental de toda a obra poética. Vemos que no teatro grego o tema da justiça é a própria respiração das palavras. Diz o coro de Ésquilo: «Nenhuma muralha defenderá aquele que, embriagado com a sua riqueza, derruba o altar sagrado da justiça.» Pois a justiça se confunde com aquele equilíbrio das coisas, com aquela ordem do mundo onde o poeta quer integrar o seu canto. Confunde-se com aquele amor que, segundo Dante, move o Sol e os outros astros. Confunde-se com a nossa confiança na evolução do homem, confunde-se com a nossa fé no universo. Se em frente do esplendor do mundo nos alegramos com paixão, também em frente do sofrimento do mundo nos revoltamos com paixão. Esta lógica é íntima, interior, consequente consigo própria, necessária, fiel a si mesma. O facto de sermos feitos de louvor e protesto testemunha a unidade da nossa consciência.
A moral do poema não depende de nenhum código, de nenhuma lei, de nenhum programa que lhe seja exterior, mas, porque é uma realidade vivida, integra-se no tempo vivido. E o tempo em que vivemos é o tempo duma profunda tomada de consciência. Depois de tantos séculos de pecado burguês a nossa época rejeita a herança do pecado organizado. Não aceitamos a fatalidade do mal. Como Antígona a poesia do nosso tempo diz: «Eu sou aquela que não aprendeu a ceder aos desastres.» Há um desejo de rigor e de verdade que é intrínseco à íntima estrutura do poema e que não pode aceitar uma ordem falsa.
O artista não é, e nunca foi, um homem isolado que vive no alto duma torre de marfim. O artista, mesmo aquele que mais se coloca à margem da convivência, influenciará necessariamente, através da sua obra, a vida e o destino dos outros. Mesmo que o artista escolha o isolamento como melhor condição de trabalho e criação, pelo simples facto de fazer uma obra de rigor, de verdade e de consciência ele irá contribuir para a formação duma consciência comum. Mesmo que fale somente de pedras ou de brisas a obra do artista vem sempre dizer-nos isto: Que não somos apenas animais acossados na luta pela sobrevivência mas que somos, por direito natural, herdeiros da liberdade e da dignidade do ser.
Eis-nos aqui reunidos, nós escritores portugueses, reunidos por uma língua comum. Mas acima de tudo estamos reunidos por aquilo a que o padre Teilhard de Chardin chamou a nossa confiança no progresso das coisas.
E tendo começado por saudar os amigos presentes quero, ao terminar, saudar os meus amigos ausentes: porque não há nada que possa separar aqueles que estão unidos por uma fé e por uma esperança.
(Palavras ditas em 11 de Julho de 1964 no almoço promovido pela Sociedade Portuguesa de Escritores por ocasião da entrega do Grande Prémio de Poesia atribuído a Livro Sexto.
Arte Poética III, 1964.
Sempre a poesia foi para mim uma perseguição do real. Um poema foi sempre um círculo traçado à roda duma coisa, um círculo onde o pássaro do real fica preso. E se a minha poesia, tendo partido do ar, do mar e da luz, evoluiu, evoluiu sempre dentro dessa busca atenta. Quem procura uma relação justa com a pedra, com a árvore, com o rio, é necessariamente levado, pelo espírito de verdade que o anima, a procurar uma relação justa com o homem. Aquele que vê o espantoso esplendor do mundo é logicamente levado a ver o espantoso sofrimento do mundo. Aquele que vê o fenómeno quer ver todo o fenómeno. É apenas uma questão de atenção, de sequência e de rigor.
E é por isso que a poesia é uma moral. E é por isso que o poeta é levado a buscar a justiça pela própria natureza da sua poesia. E a busca da justiça é desde sempre uma coordenada fundamental de toda a obra poética. Vemos que no teatro grego o tema da justiça é a própria respiração das palavras. Diz o coro de Ésquilo: «Nenhuma muralha defenderá aquele que, embriagado com a sua riqueza, derruba o altar sagrado da justiça.» Pois a justiça se confunde com aquele equilíbrio das coisas, com aquela ordem do mundo onde o poeta quer integrar o seu canto. Confunde-se com aquele amor que, segundo Dante, move o Sol e os outros astros. Confunde-se com a nossa confiança na evolução do homem, confunde-se com a nossa fé no universo. Se em frente do esplendor do mundo nos alegramos com paixão, também em frente do sofrimento do mundo nos revoltamos com paixão. Esta lógica é íntima, interior, consequente consigo própria, necessária, fiel a si mesma. O facto de sermos feitos de louvor e protesto testemunha a unidade da nossa consciência.
A moral do poema não depende de nenhum código, de nenhuma lei, de nenhum programa que lhe seja exterior, mas, porque é uma realidade vivida, integra-se no tempo vivido. E o tempo em que vivemos é o tempo duma profunda tomada de consciência. Depois de tantos séculos de pecado burguês a nossa época rejeita a herança do pecado organizado. Não aceitamos a fatalidade do mal. Como Antígona a poesia do nosso tempo diz: «Eu sou aquela que não aprendeu a ceder aos desastres.» Há um desejo de rigor e de verdade que é intrínseco à íntima estrutura do poema e que não pode aceitar uma ordem falsa.
O artista não é, e nunca foi, um homem isolado que vive no alto duma torre de marfim. O artista, mesmo aquele que mais se coloca à margem da convivência, influenciará necessariamente, através da sua obra, a vida e o destino dos outros. Mesmo que o artista escolha o isolamento como melhor condição de trabalho e criação, pelo simples facto de fazer uma obra de rigor, de verdade e de consciência ele irá contribuir para a formação duma consciência comum. Mesmo que fale somente de pedras ou de brisas a obra do artista vem sempre dizer-nos isto: Que não somos apenas animais acossados na luta pela sobrevivência mas que somos, por direito natural, herdeiros da liberdade e da dignidade do ser.
Eis-nos aqui reunidos, nós escritores portugueses, reunidos por uma língua comum. Mas acima de tudo estamos reunidos por aquilo a que o padre Teilhard de Chardin chamou a nossa confiança no progresso das coisas.
E tendo começado por saudar os amigos presentes quero, ao terminar, saudar os meus amigos ausentes: porque não há nada que possa separar aqueles que estão unidos por uma fé e por uma esperança.
(Palavras ditas em 11 de Julho de 1964 no almoço promovido pela Sociedade Portuguesa de Escritores por ocasião da entrega do Grande Prémio de Poesia atribuído a Livro Sexto.
Arte Poética III, 1964.
3.11.19
24.7.19
descobertas tardias e saborosas
"Quem és? Perguntei ao desejo.
Respondeu: lava. Depois pó. Depois nada. "
Hilda Hilst
14.7.19
1.5.19
ELOGIO AO AMOR - Miguel Esteves Cardoso in Expresso
ELOGIO AO AMOR - Miguel Esteves Cardoso in Expresso
"Quero
fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixona de
verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita
amar sem uma razão. Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de
prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado.
Porque
se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais
barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das
calças e das contas da lavandaria.
Hoje
em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de
antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em "diálogo". O
amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se
sócios. Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor
transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem. A
paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível. O amor
tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de
se apaixonarem de verdade, ficam "praticamente" apaixonadas.
Eu
quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do
amor doente, do único amor verdadeiro que há, estou farto de conversas,
farto de compreensões, farto de conveniências de serviço. Nunca vi
namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de
hoje.
Incapazes
de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma
raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do "tá tudo bem, tudo
bem", tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides,
borra-botas, matadores do romance, romanticidas. Já ninguém se apaixona?
Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o
desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a
comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo?
O
amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha.
Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas
costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da
vida, o nosso "dá lá um jeitinho sentimental". Odeio esta mania
contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Para onde
quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada,
abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da
pantufa e da serenidade. Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo. O
nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para
nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão
de azar. O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao
céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto.
O
amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A
"vidinha" é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio, não é
um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma
condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não
se percebe. Não dá para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O
amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás
do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende. O amor é uma
verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não
faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser. O amor é uma
coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a
vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se
para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por
muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E
durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é
ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem.
Não
é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se
ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver
sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode
ceder. Não se pode resistir.
A
vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a vida inteira, o amor
não. Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também."
circuncisfláutico | adj.
cir·cun·cis·fláu·ti·co
(origem duvidosa)
adjectivo
1. [Brasil, Informal] Que mostra modos de dizer ou de fazer forçados ou pouco naturais; que mostra afectação. = AFECTADO, AMANEIRADO, DESNATURAL, PRESUMIDO, PRETENSIOSO ≠ DESAFECTADO, DESPRETENSIOSO, HUMILDE, NATURAL
2. [Brasil, Informal] Que tem ou parece ter mistério ou enigma; que não se conhece ou não se compreende. = ENIGMÁTICO, MISTERIOSO
3. [Brasil, Informal] Que não mostra alegria ou tem tendência para se isolar. = MACAMBÚZIO, SOMBRIO, SORUMBÁTICO, TACITURNO, TRISTE ≠ ALEGRE, CONTENTE, FELIZ, FESTIVO, LEDO
(origem duvidosa)
adjectivo
1. [Brasil, Informal] Que mostra modos de dizer ou de fazer forçados ou pouco naturais; que mostra afectação. = AFECTADO, AMANEIRADO, DESNATURAL, PRESUMIDO, PRETENSIOSO ≠ DESAFECTADO, DESPRETENSIOSO, HUMILDE, NATURAL
2. [Brasil, Informal] Que tem ou parece ter mistério ou enigma; que não se conhece ou não se compreende. = ENIGMÁTICO, MISTERIOSO
3. [Brasil, Informal] Que não mostra alegria ou tem tendência para se isolar. = MACAMBÚZIO, SOMBRIO, SORUMBÁTICO, TACITURNO, TRISTE ≠ ALEGRE, CONTENTE, FELIZ, FESTIVO, LEDO
cir·cun·cis·fláu·ti·co
(origem duvidosa)
"circuncisfláutico", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://dicionario.priberam.org/circuncisfl%c3%a1utico [consultado em 02-05-2019].
(origem duvidosa)
adjectivo
1.
[Brasil, Informal]
Que mostra modos de dizer ou de fazer forçados ou pouco naturais; que mostra afectação.
=
AFECTADO, AMANEIRADO, DESNATURAL, PRESUMIDO, PRETENSIOSO
≠
DESAFECTADO, DESPRETENSIOSO, HUMILDE, NATURAL
2.
[Brasil, Informal]
Que tem ou parece ter mistério ou enigma; que não se conhece ou não se compreende.
=
ENIGMÁTICO, MISTERIOSO
3.
[Brasil, Informal]
Que não mostra alegria ou tem tendência para se isolar.
=
MACAMBÚZIO, SOMBRIO, SORUMBÁTICO, TACITURNO, TRISTE
≠
ALEGRE, CONTENTE, FELIZ, FESTIVO, LEDO
"circuncisfláutico", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://dicionario.priberam.org/circuncisfl%c3%a1utico [consultado em 02-05-2019].
cir·cun·cis·fláu·ti·co
(origem duvidosa)
"circuncisfláutico", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://dicionario.priberam.org/circuncisfl%c3%a1utico [consultado em 02-05-2019].
(origem duvidosa)
adjectivo
1.
[Brasil, Informal]
Que mostra modos de dizer ou de fazer forçados ou pouco naturais; que mostra afectação.
=
AFECTADO, AMANEIRADO, DESNATURAL, PRESUMIDO, PRETENSIOSO
≠
DESAFECTADO, DESPRETENSIOSO, HUMILDE, NATURAL
2.
[Brasil, Informal]
Que tem ou parece ter mistério ou enigma; que não se conhece ou não se compreende.
=
ENIGMÁTICO, MISTERIOSO
3.
[Brasil, Informal]
Que não mostra alegria ou tem tendência para se isolar.
=
MACAMBÚZIO, SOMBRIO, SORUMBÁTICO, TACITURNO, TRISTE
≠
ALEGRE, CONTENTE, FELIZ, FESTIVO, LEDO
"circuncisfláutico", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://dicionario.priberam.org/circuncisfl%c3%a1utico [consultado em 02-05-2019].
cir·cun·cis·fláu·ti·co
(origem duvidosa)
"circuncisfláutico", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://dicionario.priberam.org/circuncisfl%c3%a1utico [consultado em 02-05-2019].
(origem duvidosa)
adjectivo
1.
[Brasil, Informal]
Que mostra modos de dizer ou de fazer forçados ou pouco naturais; que mostra afectação.
=
AFECTADO, AMANEIRADO, DESNATURAL, PRESUMIDO, PRETENSIOSO
≠
DESAFECTADO, DESPRETENSIOSO, HUMILDE, NATURAL
2.
[Brasil, Informal]
Que tem ou parece ter mistério ou enigma; que não se conhece ou não se compreende.
=
ENIGMÁTICO, MISTERIOSO
3.
[Brasil, Informal]
Que não mostra alegria ou tem tendência para se isolar.
=
MACAMBÚZIO, SOMBRIO, SORUMBÁTICO, TACITURNO, TRISTE
≠
ALEGRE, CONTENTE, FELIZ, FESTIVO, LEDO
"circuncisfláutico", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://dicionario.priberam.org/circuncisfl%c3%a1utico [consultado em 02-05-2019].
22.4.19
3.4.19
29.3.19
22.3.19
12.3.19
homens ...
Homens que são como lugares mal situados
Homens que são como casas saqueadas
Que são como sítios fora dos mapas
Como pedras fora do chão
Como crianças órfãs
Homens sem fuso horário
Homens agitados sem bússola onde repousem
Homens que são como fronteiras invadidas
Que são como caminhos barricados
Homens que querem passar pelos atalhos sufocados
Homens sulfatados por todos os destinos
Desempregados das suas vidas
Homens que são como a negação das estratégias
Que são como os esconderijos dos contrabandistas
Homens encarcerados abrindo-se com facas
Homens que são como danos irreparáveis
Homens que são sobreviventes vivos
Homens que são como sítios desviados
Do lugar
Daniel Faria
Homens que são como casas saqueadas
Que são como sítios fora dos mapas
Como pedras fora do chão
Como crianças órfãs
Homens sem fuso horário
Homens agitados sem bússola onde repousem
Homens que são como fronteiras invadidas
Que são como caminhos barricados
Homens que querem passar pelos atalhos sufocados
Homens sulfatados por todos os destinos
Desempregados das suas vidas
Homens que são como a negação das estratégias
Que são como os esconderijos dos contrabandistas
Homens encarcerados abrindo-se com facas
Homens que são como danos irreparáveis
Homens que são sobreviventes vivos
Homens que são como sítios desviados
Do lugar
Daniel Faria
20.2.19
17.2.19
6.2.19
light as a feather ....
"It’s dark because you are trying too hard.
Lightly child, lightly. Learn to do everything lightly.
Yes, feel lightly even though you’re feeling deeply.
Just lightly let things happen and lightly cope with them.
.....
So throw away your baggage and go forward.
There are quicksands all about you, sucking at your feet,
trying to suck you down into fear and self-pity and despair.
That’s why you must walk so lightly.
Lightly my darling,
on tiptoes and no luggage,
not even a sponge bag,
completely unencumbered.”
quote of aldous huxley
5.2.19
30.12.18
15.12.18
o presente e o futuro ?
Io sono una forza del passato,
Solo nella tradizione è il mio amore
(Eu sou uma força do passado, /Só na tradição reside o meu amor).
Pier Paolo Pasolini.
14.12.18
13.12.18
Pois
"a análise psicológica deixou de me interessar desde o dia em que cheguei à conclusão de que cada um é o que imagina que é "
André Gide
André Gide
7.10.18
21.9.18
espirituoso = parvo
Carmen Segóvia:" fala somente quando as tuas palavras forem mais poderosas que o teu silêncio."
imperfectualizar
Letras
I'm going to answer, protecting
It can be so hard to forgive
It's not what I thought, and it's not what I pictured
When I was imagining my man
You are so nervous all of the time, living the classics
I know that imagining my man
Imagining, imagining my man
It can be so hard to forgive
It's not what I thought, and it's not what I pictured
When I was imagining my man
You are so nervous all of the time, living the classics
I know that imagining my man
Imagining, imagining my man
All my life (hey!) I've had to fight to stay
You were right, love takes time, hey, hey
You were right, love takes time, hey, hey
You have this dream, apparently I'm not done
I leave and it's dreadful
If you get there
Be honest, respectful
I leave and it's dreadful
If you get there
Be honest, respectful
All my life (hey!) I never tried to stay
You were right, love takes time, hey, hey
You were right, love takes time, hey, hey
I hope one dream will get that when we're
Lucky to be given the chance
I do not have the answer
But I don't have the wish to go back
Lucky to be given the chance
I do not have the answer
But I don't have the wish to go back
All my life (hey!) I've had to fight to stay
You were right (yes!), love takes time, hey, hey
All my life (hey!) I've had to fight to stay
You were right, love takes time, hey, hey
You were right (yes!), love takes time, hey, hey
All my life (hey!) I've had to fight to stay
You were right, love takes time, hey, hey
Compositores: Hannah Sian Topp
Letras de Imagining My Man © Universal Music Publishing Group, Domino Publishing Company
14.9.18
30.8.18
waiting for the whistle
Uma Recordação
Não há homem que consiga deixar uma marca
nela. Todo o passado se dilui num sonho
como uma rua na manhã e só fica ela.
Se não fosse a testa franzida por um momento
pareceria atónita. As maçãs do rosto têm sempre
um sorriso.
Também não se acumulam os dias
no seu rosto, nem alteram o sorriso leve
que irradia sobre todas as coisas. Com uma firmeza dura
faz cada coisa como se fosse a primeira;
no entanto vive-a até ao último momento. O seu corpo
firme abre-se, o olhar recolhido,
a uma voz doce e algo rouca: à voz
dum homem cansado. E nenhum cansaço a toca.
Quando se lhe olha para a boca, semicerra os olhos
à espera: ninguém se arriscaria.
Muitos homens conhecem o seu ambíguo sorriso
ou a súbita ruga. Se homem existiu
que a soube queixosa, humilhada de amor,
paga dia após dia, ignorando dela
por quem vive hoje.
Caminhando pela rua
sorri sozinha o sorriso mais ambíguo.
Cesare Pavese, in 'Trabalhar Cansa'
Tradução de Carlos Leite
"Esperar é ainda uma ocupação. Terrível é não ter nada que esperar."
16.8.18
19.7.18
8.7.18
Soror Violante
Vozes de uma dama desvanecida
de dentro de uma sepultura que fala
a outra dama que presumida entrou em
uma igreja com os cuidados de ser vista
e louvada de todos; e se assentou junto
a um túmulo que tinha este epitáfio
que leu curiosamente
Ó tu, que com enganos divertida
Vives do que hás-de ser tão descuidada,
Aprende aqui lições de escarmentada,
Ostentarás acções de prevenida.
Considera que em terra convertida
Jaz aqui a beleza mais louvada,
E que tudo o da vida é pó, é nada,
E que menos que nada a tua vida.
Considera que a morte rigorosa
Não respeita beleza nem juízo
E que, sendo tão certa, é duvidosa.
Admite deste túmulo o aviso
E vive do teu fim mais cuidadosa,
Pois sabes que o teu fim é tão preciso.
Soror Violante do Céu (1602-1693) era uma freira dominicana que na vida secular se chamou Violante Montesino. Professou no Convento de Nossa Senhora do Rosário da Ordem de S. Domingos em 1630. Foi uma das poetisas mais consideradas do seu tempo, sendo conhecida pelos meios culturais da época como Décima Musa e Fénix dos Engenhos Lusitanos. É hoje um dos máximos expoentes da poesia barroca em Portugal. Aos 17 anos celebrizou-se ao compor uma comédia para ser representada durante a visita de Filipe II a Lisboa. Além do volume das Rimas publicado em Ruão em 1646 e do Parnaso Lusitano de Divinos e Humanos Versos, publicado em Lisboa em 1733 em dois volumes, tem várias composições poéticas na Fénix Renascida.
Se apartada do corpo a doce vida,
Domina em seu lugar a dura morte,
De que nasce tardar-me tanto a morte
Se ausente da alma estou, que me dá vida?
Não quero sem Silvano já ter vida,
Pois tudo sem Silvano é viva morte,
Já que se foi Silvano, venha a morte,
Perca-se por Silvano a minha vida.
Ah! suspirado ausente, se esta morte
Não te obriga querer vir dar-me vida,
Como não ma vem dar a mesma morte?
Mas se na alma consiste a própria vida,
Bem sei que se me tarda tanto a morte,
Que é porque sinta a morte de tal vida.
de dentro de uma sepultura que fala
a outra dama que presumida entrou em
uma igreja com os cuidados de ser vista
e louvada de todos; e se assentou junto
a um túmulo que tinha este epitáfio
que leu curiosamente
Ó tu, que com enganos divertida
Vives do que hás-de ser tão descuidada,
Aprende aqui lições de escarmentada,
Ostentarás acções de prevenida.
Considera que em terra convertida
Jaz aqui a beleza mais louvada,
E que tudo o da vida é pó, é nada,
E que menos que nada a tua vida.
Considera que a morte rigorosa
Não respeita beleza nem juízo
E que, sendo tão certa, é duvidosa.
Admite deste túmulo o aviso
E vive do teu fim mais cuidadosa,
Pois sabes que o teu fim é tão preciso.
Soror Violante do Céu (1602-1693) era uma freira dominicana que na vida secular se chamou Violante Montesino. Professou no Convento de Nossa Senhora do Rosário da Ordem de S. Domingos em 1630. Foi uma das poetisas mais consideradas do seu tempo, sendo conhecida pelos meios culturais da época como Décima Musa e Fénix dos Engenhos Lusitanos. É hoje um dos máximos expoentes da poesia barroca em Portugal. Aos 17 anos celebrizou-se ao compor uma comédia para ser representada durante a visita de Filipe II a Lisboa. Além do volume das Rimas publicado em Ruão em 1646 e do Parnaso Lusitano de Divinos e Humanos Versos, publicado em Lisboa em 1733 em dois volumes, tem várias composições poéticas na Fénix Renascida.
Se apartada do corpo a doce vida,
Domina em seu lugar a dura morte,
De que nasce tardar-me tanto a morte
Se ausente da alma estou, que me dá vida?
Não quero sem Silvano já ter vida,
Pois tudo sem Silvano é viva morte,
Já que se foi Silvano, venha a morte,
Perca-se por Silvano a minha vida.
Ah! suspirado ausente, se esta morte
Não te obriga querer vir dar-me vida,
Como não ma vem dar a mesma morte?
Mas se na alma consiste a própria vida,
Bem sei que se me tarda tanto a morte,
Que é porque sinta a morte de tal vida.
31.5.18
18.3.18
8.12.17
27.11.17
poesia: manuel antónio pina / teoria das cordas
poesia: manuel antónio pina / teoria das cordas: Não era isso que eu queria dizer, queria dizer que na alma (tu é que falaste da alma), no fundo da alma e no fundo da ideia d...
17.11.17
28.10.17
Ngungunhane
"O maior pesar era a ausência das esposas, tendo o governador intercedido, sem sucesso, para que, pelo menos uma, fosse autorizada a vir para a ilha.
A moral portuguesa a época não se compadecia com a poligamia e a solução oficial foi conduzir, todas as semanas, os prisioneiros a um bordel da cidade."
história portuguesa sempre a supreender
A moral portuguesa a época não se compadecia com a poligamia e a solução oficial foi conduzir, todas as semanas, os prisioneiros a um bordel da cidade."
história portuguesa sempre a supreender
27.10.17
essas coisas modernas
"As coisas modernas são
(1) A evolução dos espelhos
(2) Os guarda-fatos
Passámos
a ser criaturas vestidas, de corpo e alma. E, como a alma corresponde
sempre ao corpo, um traje espiritual estabeleceu-se. Passámos a ter a
alma essencialmente vestida, assim como passámos — homens, corpos — à
categoria de animais vestidos.
Não
é só o facto de que o nosso traje se torna uma parte de nós. É também a
complicação desse traje e a sua curiosa qualidade de não ter quase
nenhuma relação com os elementos da elegância natural do corpo nem com
as dos seus movimentos.
Se
me pedissem que explicasse o que é este meu estado de alma, através de
uma razão sensível, eu responderia mudamente apontando para um espelho,
para um cabide e para uma caneta com tinta.
s.d. "
livro do desassossego por bernardo soares
Fernando Pessoa
26.10.17
a vida dos poetas
ontem adormeci a ver um documentário de rimbaud
como é possível tornar um poeta tão fogoso
num documentário maçudo e sonolento.
da vida cada um sabe da sua
só me interessa a poesia que dela saiu
não interessa biografias nem para onde foi nem que fez , nem influências, nem juntar peças de puzzle para perceber o que seja ....
poesia é um puzzle desfragmentado e sem peças que não interessa buscar, essa é a piada
problema da poesia é que tem muita gente aborrecida à volta
como é possível tornar um poeta tão fogoso
num documentário maçudo e sonolento.
da vida cada um sabe da sua
só me interessa a poesia que dela saiu
não interessa biografias nem para onde foi nem que fez , nem influências, nem juntar peças de puzzle para perceber o que seja ....
poesia é um puzzle desfragmentado e sem peças que não interessa buscar, essa é a piada
problema da poesia é que tem muita gente aborrecida à volta
25.10.17
descoberta nova - Max Martins
No lugar do medo
Todos os dias aqui
tu te observas
E ainda está oculta (aqui) a tua semente
E ainda está oculta (aqui) a tua semente
Comum será a tua
raiz
comum
ao olor da fêmea que atua no teu leito
comum
ao olor da fêmea que atua no teu leito
Sê criativo o dia
todo
Te empenha o dia todo cauteloso
voa
mesmo hesitante sobre o teu malogro
Te empenha o dia todo cauteloso
voa
mesmo hesitante sobre o teu malogro
Quer sigas o fogo,
quer sigas a água
sê só do fogo ou só da água
(pois que não há caminho
e a lei
é o inesperado)
sê só do fogo ou só da água
(pois que não há caminho
e a lei
é o inesperado)
Ainda oculta
(aqui) a tua semente
está
está
Para ter onde ir, 1992
1926 / 1959
Já então é tudo
pedra
os dias, os
desenganos.
Rios secaram
neste rosto, casca
de barro, areia
causticante.
E onde outrora o
mar
- os olhos -
búzios esburacados.
E tudo é duro e
seco e oco,
o sexo
enlouquecido
0 osso agudo
coberto de pó e
de silêncios.
Havia uma ferida,
a primavera
que já não arde
nem desfibra - seca
a flor amarela
escura
anêmica impura
- rato no deserto
caveira de
pássaro
exposta na
planuraMinha Arte
pois que há uma canção em ti
submarina
uma promessa
de água e soma
um som premissa Eu
Eros
quero
te dizer, disseminar, minar-te
Não para consolar: poemas reunidos, 1952/199
uma promessa
de água e soma
um som premissa Eu
Eros
quero
te dizer, disseminar, minar-te
Não para consolar: poemas reunidos, 1952/199
24.10.17
up and down
"O prestígio é uma armadilha dos nossos semelhantes. Um artista
consciente saberá que o êxito é prejuízo. Deve-se estar disponível para
decepcionar os que confiaram em nós. Decepcionar é garantir o movimento.
A confiança dos outros diz-lhes respeito. A nós mesmos diz respeito
outra espécie de confiança. A de que somos insubstituíveis na nossa
aventura e de que ninguém a fará por nós. De que ela se fará à margem da
confiança alheia."
Herberto Hélder numa entrevista para o Jornal de Letras e Artes, 17 Maio 1964
17.10.17
em frente mas é
Estou atrás
do despojamento mais inteiro
da simplicidade mais erma
da palavra mais recém-nascida
do inteiro mais despojado
do ermo mais simples
do nascimento a mais da palavra.
– Ana Cristina Cesar
do despojamento mais inteiro
da simplicidade mais erma
da palavra mais recém-nascida
do inteiro mais despojado
do ermo mais simples
do nascimento a mais da palavra.
– Ana Cristina Cesar
22.9.17
20.9.17
há sacos de plástico que duram mais que poesia
‘Subi para o palco e uma luz de imensa crueldade incidiu-me no rosto. Por momentos estive tentado a fechar as pálpebras ou a fugir’.”
Miguel Rovisco
18.9.17
7.9.17
28.8.17
21.8.17
28.7.17
27.7.17
deveras que pensas
"Penso coisas tão profundas e sinto-me tão mal que penso se não serei um Intelectual.
E penso coisas tão mal e sinto-me tão profundo que devo ser o Maior Intelectual do Mundo!"
In "O Inventão" por Manuel António Pina
11.7.17
26.6.17
8.6.17
3.6.17
16.5.17
5.5.17
30.3.17
24.2.17
17.2.17
azeviche
ela soletrava de forma macambúzia e lenta , com o olhar parado
" teu coração é de cor de azeviche"
e a ficou só a palavra no ar
....
azeviche
" teu coração é de cor de azeviche"
e a ficou só a palavra no ar
....
azeviche
16.2.17
2.1.17
1.12.16
22.11.16
18.10.16
The Love Song of J. Alfred Prufrock
T. S. Eliot, 1888 - 1965
S’io credesse che mia risposta fosse
A persona che mai tornasse al mondo,
Questa fiamma staria senza piu scosse.
Ma perciocche giammai di questo fondo
Non torno vivo alcun, s’i’odo il vero,
Senza tema d’infamia ti rispondo.
Let us go then, you and I,
When the evening is spread out against the sky
Like a patient etherized upon a table;
Let us go, through certain half-deserted streets,
The muttering retreats
Of restless nights in one-night cheap hotels
And sawdust restaurants with oyster-shells:
Streets that follow like a tedious argument
Of insidious intent
To lead you to an overwhelming question…
Oh, do not ask, “What is it?”
Let us go and make our visit.
In the room the women come and go
Talking of Michelangelo.
The yellow fog that rubs its back upon the window-panes,
The yellow smoke that rubs its muzzle on the window-panes
Licked its tongue into the corners of the evening,
Lingered upon the pools that stand in drains,
Let fall upon its back the soot that falls from chimneys,
Slipped by the terrace, made a sudden leap,
And seeing that it was a soft October night,
Curled once about the house, and fell asleep.
And indeed there will be time
For the yellow smoke that slides along the street,
Rubbing its back upon the window-panes;
There will be time, there will be time
To prepare a face to meet the faces that you meet;
There will be time to murder and create,
And time for all the works and days of hands
That lift and drop a question on your plate;
Time for you and time for me,
And time yet for a hundred indecisions,
And for a hundred visions and revisions,
Before the taking of a toast and tea.
In the room the women come and go
Talking of Michelangelo.
And indeed there will be time
To wonder, “Do I dare?” and, “Do I dare?”
Time to turn back and descend the stair,
With a bald spot in the middle of my hair—
[They will say: “How his hair is growing thin!”]
My morning coat, my collar mounting firmly to the chin,
My necktie rich and modest, but asserted by a simple pin—
[They will say: “But how his arms and legs are thin!”]
Do I dare
Disturb the universe?
In a minute there is time
For decisions and revisions which a minute will reverse.
For I have known them all already, known them all—
Have known the evenings, mornings, afternoons,
I have measured out my life with coffee spoons;
I know the voices dying with a dying fall
Beneath the music from a farther room.
So how should I presume?
And I have known the eyes already, known them all—
The eyes that fix you in a formulated phrase,
And when I am formulated, sprawling on a pin,
When I am pinned and wriggling on the wall,
Then how should I begin
To spit out all the butt-ends of my days and ways?
And how should I presume?
And I have known the arms already, known them all—
Arms that are braceleted and white and bare
[But in the lamplight, downed with light brown hair!]
Is it perfume from a dress
That makes me so digress?
Arms that lie along a table, or wrap about a shawl.
And should I then presume?
And how should I begin?
. . . . .
Shall I say, I have gone at dusk through narrow streets
And watched the smoke that rises from the pipes
Of lonely men in shirt-sleeves, leaning out of windows? …
I should have been a pair of ragged claws
Scuttling across the floors of silent seas.
. . . . .
And the afternoon, the evening, sleeps so peacefully!
Smoothed by long fingers,
Asleep… tired… or it malingers,
Stretched on the floor, here beside you and me.
Should I, after tea and cakes and ices,
Have the strength to force the moment to its crisis?
But though I have wept and fasted, wept and prayed,
Though I have seen my head [grown slightly bald] brought in upon a platter,
I am no prophet—and here’s no great matter;
I have seen the moment of my greatness flicker,
And I have seen the eternal Footman hold my coat, and snicker,
And in short, I was afraid.
And would it have been worth it, after all,
After the cups, the marmalade, the tea,
Among the porcelain, among some talk of you and me,
Would it have been worth while,
To have bitten off the matter with a smile,
To have squeezed the universe into a ball
To roll it toward some overwhelming question,
To say: “I am Lazarus, come from the dead,
Come back to tell you all, I shall tell you all”—
If one, settling a pillow by her head,
Should say: “That is not what I meant at all.
That is not it, at all.”
And would it have been worth it, after all,
Would it have been worth while,
After the sunsets and the dooryards and the sprinkled streets,
After the novels, after the teacups, after the skirts that trail along the floor—
And this, and so much more?—
It is impossible to say just what I mean!
But as if a magic lantern threw the nerves in patterns on a screen:
Would it have been worth while
If one, settling a pillow or throwing off a shawl,
And turning toward the window, should say:
“That is not it at all,
That is not what I meant, at all.”
. . . . .
No! I am not Prince Hamlet, nor was meant to be;
Am an attendant lord, one that will do
To swell a progress, start a scene or two,
Advise the prince; no doubt, an easy tool,
Deferential, glad to be of use,
Politic, cautious, and meticulous;
Full of high sentence, but a bit obtuse;
At times, indeed, almost ridiculous—
Almost, at times, the Fool.
I grow old… I grow old…
I shall wear the bottoms of my trousers rolled.
Shall I part my hair behind? Do I dare to eat a peach?
I shall wear white flannel trousers, and walk upon the beach.
I have heard the mermaids singing, each to each.
I do not think that they will sing to me.
I have seen them riding seaward on the waves
Combing the white hair of the waves blown back
When the wind blows the water white and black.
We have lingered in the chambers of the sea
By sea-girls wreathed with seaweed red and brown
Till human voices wake us, and we drown.
A persona che mai tornasse al mondo,
Questa fiamma staria senza piu scosse.
Ma perciocche giammai di questo fondo
Non torno vivo alcun, s’i’odo il vero,
Senza tema d’infamia ti rispondo.
Let us go then, you and I,
When the evening is spread out against the sky
Like a patient etherized upon a table;
Let us go, through certain half-deserted streets,
The muttering retreats
Of restless nights in one-night cheap hotels
And sawdust restaurants with oyster-shells:
Streets that follow like a tedious argument
Of insidious intent
To lead you to an overwhelming question…
Oh, do not ask, “What is it?”
Let us go and make our visit.
In the room the women come and go
Talking of Michelangelo.
The yellow fog that rubs its back upon the window-panes,
The yellow smoke that rubs its muzzle on the window-panes
Licked its tongue into the corners of the evening,
Lingered upon the pools that stand in drains,
Let fall upon its back the soot that falls from chimneys,
Slipped by the terrace, made a sudden leap,
And seeing that it was a soft October night,
Curled once about the house, and fell asleep.
And indeed there will be time
For the yellow smoke that slides along the street,
Rubbing its back upon the window-panes;
There will be time, there will be time
To prepare a face to meet the faces that you meet;
There will be time to murder and create,
And time for all the works and days of hands
That lift and drop a question on your plate;
Time for you and time for me,
And time yet for a hundred indecisions,
And for a hundred visions and revisions,
Before the taking of a toast and tea.
In the room the women come and go
Talking of Michelangelo.
And indeed there will be time
To wonder, “Do I dare?” and, “Do I dare?”
Time to turn back and descend the stair,
With a bald spot in the middle of my hair—
[They will say: “How his hair is growing thin!”]
My morning coat, my collar mounting firmly to the chin,
My necktie rich and modest, but asserted by a simple pin—
[They will say: “But how his arms and legs are thin!”]
Do I dare
Disturb the universe?
In a minute there is time
For decisions and revisions which a minute will reverse.
For I have known them all already, known them all—
Have known the evenings, mornings, afternoons,
I have measured out my life with coffee spoons;
I know the voices dying with a dying fall
Beneath the music from a farther room.
So how should I presume?
And I have known the eyes already, known them all—
The eyes that fix you in a formulated phrase,
And when I am formulated, sprawling on a pin,
When I am pinned and wriggling on the wall,
Then how should I begin
To spit out all the butt-ends of my days and ways?
And how should I presume?
And I have known the arms already, known them all—
Arms that are braceleted and white and bare
[But in the lamplight, downed with light brown hair!]
Is it perfume from a dress
That makes me so digress?
Arms that lie along a table, or wrap about a shawl.
And should I then presume?
And how should I begin?
. . . . .
Shall I say, I have gone at dusk through narrow streets
And watched the smoke that rises from the pipes
Of lonely men in shirt-sleeves, leaning out of windows? …
I should have been a pair of ragged claws
Scuttling across the floors of silent seas.
. . . . .
And the afternoon, the evening, sleeps so peacefully!
Smoothed by long fingers,
Asleep… tired… or it malingers,
Stretched on the floor, here beside you and me.
Should I, after tea and cakes and ices,
Have the strength to force the moment to its crisis?
But though I have wept and fasted, wept and prayed,
Though I have seen my head [grown slightly bald] brought in upon a platter,
I am no prophet—and here’s no great matter;
I have seen the moment of my greatness flicker,
And I have seen the eternal Footman hold my coat, and snicker,
And in short, I was afraid.
And would it have been worth it, after all,
After the cups, the marmalade, the tea,
Among the porcelain, among some talk of you and me,
Would it have been worth while,
To have bitten off the matter with a smile,
To have squeezed the universe into a ball
To roll it toward some overwhelming question,
To say: “I am Lazarus, come from the dead,
Come back to tell you all, I shall tell you all”—
If one, settling a pillow by her head,
Should say: “That is not what I meant at all.
That is not it, at all.”
And would it have been worth it, after all,
Would it have been worth while,
After the sunsets and the dooryards and the sprinkled streets,
After the novels, after the teacups, after the skirts that trail along the floor—
And this, and so much more?—
It is impossible to say just what I mean!
But as if a magic lantern threw the nerves in patterns on a screen:
Would it have been worth while
If one, settling a pillow or throwing off a shawl,
And turning toward the window, should say:
“That is not it at all,
That is not what I meant, at all.”
. . . . .
No! I am not Prince Hamlet, nor was meant to be;
Am an attendant lord, one that will do
To swell a progress, start a scene or two,
Advise the prince; no doubt, an easy tool,
Deferential, glad to be of use,
Politic, cautious, and meticulous;
Full of high sentence, but a bit obtuse;
At times, indeed, almost ridiculous—
Almost, at times, the Fool.
I grow old… I grow old…
I shall wear the bottoms of my trousers rolled.
Shall I part my hair behind? Do I dare to eat a peach?
I shall wear white flannel trousers, and walk upon the beach.
I have heard the mermaids singing, each to each.
I do not think that they will sing to me.
I have seen them riding seaward on the waves
Combing the white hair of the waves blown back
When the wind blows the water white and black.
We have lingered in the chambers of the sea
By sea-girls wreathed with seaweed red and brown
Till human voices wake us, and we drown.
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