28.10.17

Ngungunhane

"O maior pesar era a ausência das esposas, tendo o governador intercedido, sem sucesso, para que, pelo menos uma, fosse autorizada a vir para a ilha.
 A moral portuguesa a época não se compadecia com a poligamia e a solução oficial foi conduzir, todas as semanas, os prisioneiros a um bordel da cidade."

história portuguesa sempre a supreender  

27.10.17

essas coisas modernas

"As coisas modernas são

(1) A evolução dos espelhos
(2) Os guarda-fatos

Passámos a ser criaturas vestidas, de corpo e alma. E, como a alma corresponde sempre ao corpo, um traje espiritual estabeleceu-se. Passámos a ter a alma essencialmente vestida, assim como passámos — homens, corpos — à categoria de animais vestidos.

Não é só o facto de que o nosso traje se torna uma parte de nós. É também a complicação desse traje e a sua curiosa qualidade de não ter quase nenhuma relação com os elementos da elegância natural do corpo nem com as dos seus movimentos.

Se me pedissem que explicasse o que é este meu estado de alma, através de uma razão sensível, eu responderia mudamente apontando para um espelho, para um cabide e para uma caneta com tinta.
s.d. "

livro do desassossego por bernardo soares

Fernando Pessoa

manja-léguas


26.10.17

Oh

a vida dos poetas

ontem adormeci a ver um documentário de rimbaud
como é possível tornar um poeta tão fogoso
num documentário maçudo e sonolento.
da vida cada um sabe da sua
só me interessa a poesia que dela saiu
não interessa biografias nem para onde foi nem que fez , nem influências, nem juntar peças de puzzle para perceber o que seja ....
poesia é um puzzle desfragmentado e sem peças que não interessa buscar, essa é a piada
problema da poesia é que tem muita gente aborrecida à volta

25.10.17

descoberta nova - Max Martins

No lugar do medo
Todos os dias aqui tu te observas
E ainda está oculta (aqui) a tua semente
Comum será a tua raiz
                                     comum
ao olor da fêmea que atua no teu leito
Sê criativo o dia todo
Te empenha o dia todo cauteloso
                                                   voa
mesmo hesitante sobre o teu malogro
Quer sigas o fogo, quer sigas a água
sê só do fogo ou só da água
(pois que não há caminho
e a lei
é o inesperado)
Ainda oculta (aqui) a tua semente
                                                    está
Para ter onde ir, 1992


1926 / 1959
Já então é tudo pedra
os dias, os desenganos.
Rios secaram neste rosto, casca
de barro, areia causticante.
E onde outrora o mar
- os olhos - búzios esburacados.

E tudo é duro e seco e oco,
o sexo enlouquecido
0 osso agudo
coberto de pó e de silêncios.

Havia uma ferida, a primavera
que já não arde nem desfibra - seca
a flor amarela escura
anêmica impura
- rato no deserto

caveira de pássaro
exposta na planura



Minha Arte

pois que há uma canção em ti
submarina

uma promessa
de água e soma
um som premissa Eu
Eros
quero
te dizer, disseminar, minar-te

  Não para consolar: poemas reunidos, 1952/199

24.10.17

up and down

"O prestígio é uma armadilha dos nossos semelhantes. Um artista consciente saberá que o êxito é prejuízo. Deve-se estar disponível para decepcionar os que confiaram em nós. Decepcionar é garantir o movimento. A confiança dos outros diz-lhes respeito. A nós mesmos diz respeito outra espécie de confiança. A de que somos insubstituíveis na nossa aventura e de que ninguém a fará por nós. De que ela se fará à margem da confiança alheia."

Herberto Hélder
numa entrevista para o Jornal de Letras e Artes, 17 Maio 1964 

17.10.17

em frente mas é

Estou atrás
do despojamento mais inteiro
da simplicidade mais erma
da palavra mais recém-nascida
do inteiro mais despojado
do ermo mais simples
do nascimento a mais da palavra.
– Ana Cristina Cesar