Já não há poetas estrábicos nem daltónicos
Já não há poetas malditos
Já não poetas que busquem a liberdade
Só perpetuam a liberdade que foi ganha outrora
Já não há poetas alcoólicos
Já não há poetas disruptivos
Já não há poetas inconstantes
Agora tomam medicação ou fazem terapias alternativas
São todos muito perfeitos
Com opiniões iguais
Que pensam de forma igual
Que escrevem monocordicamente e sem o ritmo do paladar
Fazem tudo igual, lêem o mesmo , fazem like nos mesmos posts
Nem uma ponta de tristeza
Já não há poetas filólogos
Nem palavras difíceis
Nem diletantes
Nem réstias de vermelho cobre para atentar a vista
Tudo com a mesma cor monocromática
Sobre um magno nevoeiro
Tudo causa sono
Livros de poesia são mais baratos que valdispert
Já não tiram sono
Já não criam frenesim nem dúvidas existenciais
No meio desta certeza, eu quero a dúvida de um poema que não sabe estar
A dúvida que cresce com a leitura de um poema
A dúvida da ambiguidade
A dúvida do dadaísmo
A dúvida do surrealismo
Oh michaux retorna a nós
Vem dar workshops de escrita criativa
Oh parra faz um webinar sobre o objectivo da poesia
Façam alguma coisa , não confiem em nós
Estamos perdidos num pandemónio de certezas
E esta é a pior perdição que podemos ter