6.7.20

liturgia

"Não sou particularmente boa pessoa"

Poesia por Miguel Martins

"Não sou particularmente boa pessoa.
Não tenho especial bom gosto.
A minha família é como as demais.
As coisas muito boas desperdiçam-se em mim.
Dentro dos limites do razoável burguês,
qualquer coisa me serve.
Prefiro conversar com um velejador solitário,
um condutor de tanques de guerra,
um taxista de Istambul
do que com um pensador da pós-modernidade
ou um poeta de palavras astuciosamente enclavinhadas.
Mais: prefiro despir uma operária de Manchester
a qualquer coisa dessas
(por mim, tudo à minha volta estaria em trânsito constante).
Não sou muito competente em nada,
a preguiça não ajuda
e a pressa inexplicável muito menos.
Sou imediatista:
materialista e anárgiro.
Tenho uma aproximação instrumental aos sonhos
e uma abordagem nefelibata às coisas práticas
(é óbvio que se pode ser volúvel sem se ser gelatinoso).
Habituei-me a depender dos outros,
a contar com eles
e a não me considerar, sequer, em dívida.
Húbris sem némesis.
Tenho todo o tipo de preconceitos.
Apoio-me num andaime de suficiências reveladas.
A avidez tomou em mim o lugar da razão e da justiça.
Demagogia por demagogia, mais vale nenhuma
e a retórica é uma canseira.
É preciso muita objectividade para viver tão enovelado
e é preciso viver muito enovelado para ser tão objectivo
(de igual modo, tenho de ter muita saúde para ter tão pouca
— a gordura armazenada nas bossas dos camelos
ou um acaso genético
ou um sofá herdado).
Ora bem: dito isto,
sou dos tipos menos desinteressantes que conheci.
Tenho olfacto para animar qualquer sala durante meia hora
e só não me dão de beber em ambientes daquela miopia
— empedernidamente fúnebre —
que se topa à légua pela acne tardia,
a pele amarelada,
a cara emaciada dos que só têm uma (e logo assim!),
gente que não sabe soldar dois arames
e faz minetes como os gatos bebem leite."

O Melhor que o confinamento de março de 2020 trouxe https://torpor.abysmo.pt/

4.2.20

Natal...ia

"Senhores jurados sou um poeta
um multipétalo uivo um defeito
e ando com uma camisa de vento
ao contrário do esqueleto

Sou um vestíbulo do impossível um lápis
de armazenado espanto e por fim
com a paciência dos versos
espero viver dentro de mim

Sou em código o azul de todos
(curtido couro de cicatrizes)
uma avaria cantante
na maquineta dos felizes

Senhores banqueiros sois a cidade
o vosso enfarte serei
não há cidade sem o parque
do sono que vos roubei

Senhores professores que pusestes
a prémio minha rara edição
 de raptar-me em crianças que salvo
do incêndio da vossa lição

Senhores tiranos que do baralho
de em pó volverdes sois os reis
sou um poeta jogo-me aos dados
ganho as paisagens que não vereis

Senhores heróis até aos dentes
puro exercício de ninguém
minha cobardia é esperar-vos
umas estrofes mais além

Senhores três quatro cinco e sete
que medo vos pôs por ordem?
que pavor fechou o leque
da vossa diferença enquanto homem?

Senhores juízes que não molhais
a pena na tinta da natureza
não apedrejeis meu pássaro
sem que ele cante minha defesa

Sou uma impudência a mesa posta
de um verso onde o possa escrever
ó subalimentados do sonho!
a poesia é para comer. "



natália correia
as maçãs de orestes
1970

25.1.20

A nossa vez

"o frio que nos tolhe ao domingo
no Inverno, quando mais rareia
a esperança. São certas fixações
da consciência, coisas que andam
pela casa à procura de um lugar

e entram clandestinas no poema.
São os envelopes da companhia
da água, a faca suja de manteiga
na toalha, esse trilho que deixamos
atrás de nós e se decifra sem esforço
nem proveito. É a espera

e a demora. São as ruas sossegadas
à hora do telejornal e os talheres
da vizinhança a retinir. É a deriva
nocturna da memória: é o medo
de termos perdido sem querer

a nossa vez. "

Rui Pires Cabral, in 'Longe da Aldeia'

está tudo no ritmo ...