14.11.19

poesia em 1964

«A coisa mais antiga de que me lembro é dum quarto em frente do mar dentro do qual estava, poisada em cima duma mesa, uma maçã enorme e vermelha. Do brilho do mar e do vermelho da maçã erguia-se uma felicidade irrecusável, nua e inteira. Não era nada de fantástico, não era nada de imaginário: era a própria presença do real que eu descobria. Mais tarde a obra de outros artistas veio confirmar a objectividade do meu próprio olhar. Em Homero reconheci essa felicidade nua e inteira, esse esplendor da presença das coisas. E também a reconheci, intensa, atenta e acesa na pintura de Amadeo de Souza-Cardoso. Dizer que a obra de arte faz parte da cultura é uma coisa um pouco escolar e artificial. A obra de arte faz parte do real e é destino, realização, salvação e vida.
Sempre a poesia foi para mim uma perseguição do real. Um poema foi sempre um círculo traçado à roda duma coisa, um círculo onde o pássaro do real fica preso. E se a minha poesia, tendo partido do ar, do mar e da luz, evoluiu, evoluiu sempre dentro dessa busca atenta. Quem procura uma relação justa com a pedra, com a árvore, com o rio, é necessariamente levado, pelo espírito de verdade que o anima, a procurar uma relação justa com o homem. Aquele que vê o espantoso esplendor do mundo é logicamente levado a ver o espantoso sofrimento do mundo. Aquele que vê o fenómeno quer ver todo o fenómeno. É apenas uma questão de atenção, de sequência e de rigor.
E é por isso que a poesia é uma moral. E é por isso que o poeta é levado a buscar a justiça pela própria natureza da sua poesia. E a busca da justiça é desde sempre uma coordenada fundamental de toda a obra poética. Vemos que no teatro grego o tema da justiça é a própria respiração das palavras. Diz o coro de Ésquilo: «Nenhuma muralha defenderá aquele que, embriagado com a sua riqueza, derruba o altar sagrado da justiça.» Pois a justiça se confunde com aquele equilíbrio das coisas, com aquela ordem do mundo onde o poeta quer integrar o seu canto. Confunde-se com aquele amor que, segundo Dante, move o Sol e os outros astros. Confunde-se com a nossa confiança na evolução do homem, confunde-se com a nossa fé no universo. Se em frente do esplendor do mundo nos alegramos com paixão, também em frente do sofrimento do mundo nos revoltamos com paixão. Esta lógica é íntima, interior, consequente consigo própria, necessária, fiel a si mesma. O facto de sermos feitos de louvor e protesto testemunha a unidade da nossa consciência.
A moral do poema não depende de nenhum código, de nenhuma lei, de nenhum programa que lhe seja exterior, mas, porque é uma realidade vivida, integra-se no tempo vivido. E o tempo em que vivemos é o tempo duma profunda tomada de consciência. Depois de tantos séculos de pecado burguês a nossa época rejeita a herança do pecado organizado. Não aceitamos a fatalidade do mal. Como Antígona a poesia do nosso tempo diz: «Eu sou aquela que não aprendeu a ceder aos desastres.» Há um desejo de rigor e de verdade que é intrínseco à íntima estrutura do poema e que não pode aceitar uma ordem falsa.
O artista não é, e nunca foi, um homem isolado que vive no alto duma torre de marfim. O artista, mesmo aquele que mais se coloca à margem da convivência, influenciará necessariamente, através da sua obra, a vida e o destino dos outros. Mesmo que o artista escolha o isolamento como melhor condição de trabalho e criação, pelo simples facto de fazer uma obra de rigor, de verdade e de consciência ele irá contribuir para a formação duma consciência comum. Mesmo que fale somente de pedras ou de brisas a obra do artista vem sempre dizer-nos isto: Que não somos apenas animais acossados na luta pela sobrevivência mas que somos, por direito natural, herdeiros da liberdade e da dignidade do ser.
Eis-nos aqui reunidos, nós escritores portugueses, reunidos por uma língua comum. Mas acima de tudo estamos reunidos por aquilo a que o padre Teilhard de Chardin chamou a nossa confiança no progresso das coisas.
E tendo começado por saudar os amigos presentes quero, ao terminar, saudar os meus amigos ausentes: porque não há nada que possa separar aqueles que estão unidos por uma fé e por uma esperança.
(Palavras ditas em 11 de Julho de 1964 no almoço promovido pela Sociedade Portuguesa de Escritores por ocasião da entrega do Grande Prémio de Poesia atribuído a Livro Sexto.
Arte Poética III, 1964.

1.5.19

ELOGIO AO AMOR - Miguel Esteves Cardoso in Expresso

ELOGIO AO AMOR - Miguel Esteves Cardoso in Expresso


"Quero fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão. Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado.
Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria.
Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em "diálogo". O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios. Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam "praticamente" apaixonadas.
Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há, estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço. Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje.
Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do "tá tudo bem, tudo bem", tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas. Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo?
O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso "dá lá um jeitinho sentimental". Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade. Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão de azar. O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto.
O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A "vidinha" é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não dá para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende. O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser. O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem.
Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir.
A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a vida inteira, o amor não. Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também."

circuncisfláutico | adj.

cir·cun·cis·fláu·ti·co
(origem duvidosa)
adjectivo
1. [Brasil, Informal]  Que mostra modos de dizer ou de fazer forçados ou pouco naturais; que mostra afectação. = AFECTADO, AMANEIRADO, DESNATURAL, PRESUMIDO, PRETENSIOSO ≠ DESAFECTADO, DESPRETENSIOSO, HUMILDE, NATURAL
2. [Brasil, Informal]  Que tem ou parece ter mistério ou enigma; que não se conhece ou não se compreende. = ENIGMÁTICO, MISTERIOSO
3. [Brasil, Informal]  Que não mostra alegria ou tem tendência para se isolar. = MACAMBÚZIO, SOMBRIO, SORUMBÁTICO, TACITURNO, TRISTE ≠ ALEGRE, CONTENTE, FELIZ, FESTIVO, LEDO

cir·cun·cis·fláu·ti·co
(origem duvidosa)
adjectivo
1. [Brasil, Informal]  Que mostra modos de dizer ou de fazer forçados ou pouco naturais; que mostra afectação. = AFECTADO, AMANEIRADO, DESNATURAL, PRESUMIDO, PRETENSIOSODESAFECTADO, DESPRETENSIOSO, HUMILDE, NATURAL
2. [Brasil, Informal]  Que tem ou parece ter mistério ou enigma; que não se conhece ou não se compreende. = ENIGMÁTICO, MISTERIOSO
3. [Brasil, Informal]  Que não mostra alegria ou tem tendência para se isolar. = MACAMBÚZIO, SOMBRIO, SORUMBÁTICO, TACITURNO, TRISTEALEGRE, CONTENTE, FELIZ, FESTIVO, LEDO

"circuncisfláutico", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://dicionario.priberam.org/circuncisfl%c3%a1utico [consultado em 02-05-2019].
cir·cun·cis·fláu·ti·co
(origem duvidosa)
adjectivo
1. [Brasil, Informal]  Que mostra modos de dizer ou de fazer forçados ou pouco naturais; que mostra afectação. = AFECTADO, AMANEIRADO, DESNATURAL, PRESUMIDO, PRETENSIOSODESAFECTADO, DESPRETENSIOSO, HUMILDE, NATURAL
2. [Brasil, Informal]  Que tem ou parece ter mistério ou enigma; que não se conhece ou não se compreende. = ENIGMÁTICO, MISTERIOSO
3. [Brasil, Informal]  Que não mostra alegria ou tem tendência para se isolar. = MACAMBÚZIO, SOMBRIO, SORUMBÁTICO, TACITURNO, TRISTEALEGRE, CONTENTE, FELIZ, FESTIVO, LEDO

"circuncisfláutico", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://dicionario.priberam.org/circuncisfl%c3%a1utico [consultado em 02-05-2019].
cir·cun·cis·fláu·ti·co
(origem duvidosa)
adjectivo
1. [Brasil, Informal]  Que mostra modos de dizer ou de fazer forçados ou pouco naturais; que mostra afectação. = AFECTADO, AMANEIRADO, DESNATURAL, PRESUMIDO, PRETENSIOSODESAFECTADO, DESPRETENSIOSO, HUMILDE, NATURAL
2. [Brasil, Informal]  Que tem ou parece ter mistério ou enigma; que não se conhece ou não se compreende. = ENIGMÁTICO, MISTERIOSO
3. [Brasil, Informal]  Que não mostra alegria ou tem tendência para se isolar. = MACAMBÚZIO, SOMBRIO, SORUMBÁTICO, TACITURNO, TRISTEALEGRE, CONTENTE, FELIZ, FESTIVO, LEDO

"circuncisfláutico", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://dicionario.priberam.org/circuncisfl%c3%a1utico [consultado em 02-05-2019].

12.3.19

homens ...

Homens que são como lugares mal situados
Homens que são como casas saqueadas
Que são como sítios fora dos mapas
Como pedras fora do chão
Como crianças órfãs
Homens sem fuso horário
Homens agitados sem bússola onde repousem
Homens que são como fronteiras invadidas
Que são como caminhos barricados
Homens que querem passar pelos atalhos sufocados
Homens sulfatados por todos os destinos
Desempregados das suas vidas
Homens que são como a negação das estratégias
Que são como os esconderijos dos contrabandistas
Homens encarcerados abrindo-se com facas
Homens que são como danos irreparáveis
Homens que são sobreviventes vivos
Homens que são como sítios desviados
Do lugar
Daniel Faria

6.2.19

light as a feather ....

"It’s dark because you are trying too hard.
Lightly child, lightly. Learn to do everything lightly.
Yes, feel lightly even though you’re feeling deeply.
Just lightly let things happen and lightly cope with them.

 

.....

 

So throw away your baggage and go forward.
There are quicksands all about you, sucking at your feet,
trying to suck you down into fear and self-pity and despair.
That’s why you must walk so lightly.
Lightly my darling,
on tiptoes and no luggage,
not even a sponge bag,
completely unencumbered.”

 

 

quote of aldous huxley