8.12.12

todos têm a sua ítaca, respeitem as ítacas uns dos outros


"Se partires um dia rumo a Ítaca 
Faz votos de que o caminho seja longo 
repleto de aventuras, repleto de saber. 
Que nem monstros, nem ciclopes, 
nem a cólera de Poseídon te intimidem! 
Não os encontrarás jamais no teu caminho 
Se altivo for o teu pensamento
Se subtil emoção tocar o teu corpo e o teu espírito 
Nem monstros, nem ciclopes 
Nem o bravio Poseídon hás-de encontrar
Se tu mesmo não os levares dentro da tua alma
Se a tua alma não os puser dentro de ti. 



Faz votos de que o caminho seja longo. 
Numerosas serão as manhãs de Verão 
Nas quais com prazer, com alegria 
Tu hás-de entrar pela primeira vez num porto 
Para visitar as lojas fenícias 
Comprar as mais belas mercadorias 
Madrepérola, coral, âmbar, ébano
E perfumes sensuais de todas as espécies 
Quantos aromas deleitosos. 
Peregrinarás em muitas cidades do Egipto 
Para aprender, para aprender dos sábios. 



Mantém Ítaca na tua mente. 
Estás predestinado a ali chegar. 
Mas, não apresses a viagem nunca. 
O melhor é levares muitos anos nesta jornada 
E fundeares na ilha velho por fim. 
Rico de quanto ganhaste no caminho 
Sem esperar riquezas que Ítaca te desse. 

Ítaca proporcionou-te uma bela viagem
Sem ela não te punhas a caminho. 
Mais do que isso não lhe cumpre dar-te. 
Ítaca não te iludiu 
Se a achas pobre. 
Tu tornaste-te sábio, experiente. 
E, agora, sabes o que significa Ítaca." 


Constantino Kabvafis (1863-1933) 




Andreas Gursky

a única oração válida que conheço


"Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre a minha mãe

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...

Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
- Sei que não vou por aí! " 



José Régio